
Um dos temas mais discutidos hoje no Brasil é o do aparecimento de uma nova classe média e que representa quase metade da população. Os cientistas políticos exploram em suas reflexões o impacto deste grupo de brasileiros em ascensão sobre uma nova dinâmica política/ eleitoral no país. Já os analistas econômicos estão mais preocupados com os efeitos da ampliação do mercado consumidor sobre a dinâmica de crescimento dos próximos anos. Mas a opinião geral é de que esta dinâmica é suficientemente forte para influir no perfil de nossa sociedade ao longo da próxima década.
No debate eleitoral deste ano um dos temas que tem dominado as intervenções dos principais atores políticos é o que trata da paternidade destas mudanças. Para as pessoas ligadas ao governo e aos partidos que lhe dão apoio não existe dúvida: foi o presidente Lula e sua política social o grande responsável por estas mudanças.
Já para os que gravitam
Não vou entrar neste debate. Entretanto é possível quantificar os efeitos da estabilização conseguida nos anos FHC e da política social do governo Lula no crescimento do consumo nos últimos anos. Para este exercício escolhi entre vários indicadores o que, em minha opinião, mais se presta a esta análise: o valor em salários mínimos da prestação na compra de um automóvel de R$ 25.000,00 .
Começo pelo fim, isto é, pelo resultado deste estudo realizado pelos economistas da Quest. No período entre junho de 2000 e dezembro de 2009, o número de salários mínimos necessários para pagar a prestação deste automóvel padrão reduziu-se de dois terços. Mas o trabalho da Quest foi mais longe e identificou as principais causas desta queda. Elas estão ligadas à estabilidade econômica, conseguida no governo FHC e mantida pelo presidente Lula, e ao impacto do aumento real do mínimo no poder de compra do consumidor.
A estabilidade teve vários efeitos. O primeiro foi a redução do preço do automóvel em relação ao da cesta de consumo medida pelo IPCA. Em outras palavras houve uma mudança de preços relativos na cesta de consumo do brasileiro. Além disso, permitiu uma queda dos juros reais e um aumento dos prazos de financiamento, que chegaram para os automóveis a mais de cinco anos. Claramente foi a maior confiança do sistema bancário na estabilidade futura de preços que motivou este comportamento.
Estes fatores ligados à estabilidade macroeconômica representaram 60% da queda do valor real das prestações do automóvel tomado aqui como referência. Já o aumento real do salário mínimo e associado à política social do governo Lula explica os restantes 40% de queda no valor da prestação do financiamento.
Este mesmo exercício pode ser realizado para outros bens de consumo duráveis ou para certos serviços como viagens internacionais. Neles vamos encontrar também a convergência virtuosa entre a estabilização macro econômica de FHC com a política de ganhos reais do salário mínimo.